segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Tristeza Permitida

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
"Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Martha Medeiros

14 comentários:

Daniel Savio disse...

Bem, espero que curta uma tristeza, não exatamente uma depressão...

Contudo, prefiro que você curta alegria.

Fique com Deus, menina Luciana Costa.
Um abraço.

Pelos caminhos da vida. disse...

Qdo levanto assim já falo comigo mesmo; xô tristeza sai fora desse corpo que não te pertence.

Bom dia amiga.

Estava com saudades de vc.

beijooo.

Luciana Klopper disse...

Pensei até que o texto fosse seu, achei perfeito e hj estou assim, aliás tenho andado assim!

Luciana Klopper disse...

Pensei até que o texto fosse seu, achei perfeito e hj estou assim, aliás tenho andado assim!

Bia Ferreira disse...

é coleguinha, procure um psiquiatraaaaa... brincadeirinhaaa

ronaldo ichi disse...

sim! quem disse que ficar triste vez ou outra é errado ou anormal.

E a gente acorda sim! em dias de "Cansei de ser sexy".


Mal é nos sentirmos culpados por um momento triste ou por momento alegre.


beijos!!!!

EXAGERADO disse...

Oi,linda
Bela escolha de mais um texto perfeito da Martha.Parabéns!
Concordo que "ser alegre é ser melhor do que ser triste",como nos disse Vinicius,mas creio tb que a tristeza tem sua missão...de nos deixar quietinhos para abastecer nossas energias...
beijo

meus instantes e momentos disse...

é perfeito o texto, parabens pelo post.
Maurizio

J.R disse...

Oiii!

Normalíssimo. Ninguém é de ferro.

Tem dias que eu acordo assim tbm... Meio sem querer...

Brigadão POR FALAR COMIGO...rs.

Bjão!

Páginas da minha vida disse...

adoro esse texto!!!

tristeza de vez em quando, é bom para refletirmos melhor na nossa vida.mas se acostumar com ela, não é bom não.

bjs

Athila Goyaz disse...

Nossa, parabéns pelo texto, incrível!

Realmente a tristeza se difere muito da depressão. Como vc disse estar triste com a situação e com o descaso de alguma(s) pessoa(s).

Bom as músiocas ilustraram bem, mas espera que você adote a frase "Tristez nunca mais"

Bjus e te sigo!

Thiago Augusto" disse...

eu penso que o normal da vida são momentos negativos, os bons momentos é que são as anomalias, enfim :) é isso@

Mahria disse...

"Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria."

(Khalil Gibran)

Acho que todo mundo um dia, uma hora... acorda assim, tristeza sem razão, sem explicação ou explicada.

Passa.
E que venha a alegria. É bem melhor.

Bjinhos
Mah

Luciana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.